quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Entrevista com a Missionária Rita de Cássia para o Boletim Diocesano PARTICIPAÇÃO


Participação 2019 - Como está a experiência missionária em Moçambique?

A possibilidade de estar vivendo a um ano e dez meses com o Povo Macua, no norte de Moçambique, reacende em mim continuamente o amor de Deus que se faz realidade no sim e na partilha do dia a dia. Uma experiência que mostra a face de Deus na presença dos irmãos e irmãs, deste chão africano, que ainda clamam por justiça e igualdade diante da cultura de exploração e de morte que perpassa a vida por aqui.


Na graça de viver a missão ad gentes, através do Projeto Igrejas Solidárias do RS, tenho presenciado encontros e situações inusitadas, através do jeito de ser e fazer dos Macuas, que no seu cotidiano desde muito cedo caminham longas distâncias para suas machambas (hortas) para semear mandioca, milho e amendoim, o que será o sustento da família ao longo do ano. Tarefas preenchidas pela dança, pela ginga e pela música que embalam os afazeres e faz o sangue da resistência brotar diante do sofrimento causado pelo descaso do Governo e a presença dos países (China e Países Árabes) que ainda exploram as riquezas naturais de Moçambique e a sua mão de obra.

 Lembro, especialmente, das celebrações e momentos nas 156 comunidades são sempre singulares na mística e plurais no amor e na partilha do mesmo, bem como, as formações das lideranças que mostram a esperança e o desejo de mudança por parte de cristãos e cristãs autênticos que vivem na luta por justiça e paz, o seu batismo. Como nos convoca Papa Francisco “Não deixemos que nos roubem a esperança” na sua exortação A Alegria do Evangelho.
Tempo de conhecer e se envolver na forma de teimar e ser alegre deste povo, que continuamente nos mostram que na simplicidade e encontra o encanto da vida. Uma teimosia capaz de colocar-se sempre à disposição do Evangelho. Povo que mesmo diante da seca e das queimadas, se faz ressoador da Palavra de Deus, povo que na busca por saúde e educação, enfrenta novamente neste ano um período eleitoral conflituoso e violento entre partidos políticos, em que muitas pessoas perdem a vida e o direito de se expressarem livremente. Gente pagando com a vida o preço da corrupção e que ingenuamente caem na compra de votos causado pela forma ditatorial que Moçambique vive a 44 anos, desde sua independência. Exterminando a democracia e forjando resultados a todo o custo.

Essa situação política desperta em nós missionários o desejo de “virar o templo”, bem como Jesus fez, agindo na denúncia e no testemunho de quem deseja viver no direito pleno de Moçambique ser um país livre e democrático. Desta forma, é preciso resgatar a história junto com o Povo, num processo que já dura 25 anos com a presença dos missionários deste Projeto, que busca no caminho da evangelização também chamar atenção para a conscientização social e política de todos. Aos poucos, vamos vencendo os medos e atualizando nossa história com mais ardor e menos guerra. Colocando a vida em primeiro lugar e a busca pelos direitos através do diálogo, fugindo da corrupção tão facilmente ofertada. Para isso, nos exorta Papa Francisco, no seu pronunciamento na Catedral Nossa Senhora da Conceição, em Maputo, “é preciso voltar a Nazaré”, sermos a simplicidade e vivermos a pobreza na dimensão da partilha, imitando Jesus Cristo.


Como foi a visita do Papa Francisco?
O Papa Francisco esteve na capital, Maputo, dos dias 04 à 06 de setembro o que movimentou muitos moçambicanos para este profético encontro com o Santo Padre. Tivemos, como equipa missionária de Moma, a oportunidade de estarmos reunidos com povo e o Papa, que juntamente com um grupo da arquidiocese de Nampula buscou levar ao Sul do país a nossa realidade do norte, que é cada vez mais explorado e esquecido pelo atual Governo. Reconciliação, paz e esperança, esse foi o foco do Papa Francisco entre nós, Ele nos ajudou a refletir sobre nossa história, falou-nos da importância da nossas raízes e do quando precisamos nos empenhar em construir um novo jeito de viver, longe de tudo que aprisiona este país.

Especialmente no encontro inter-religioso com os jovens que contou com a participação de mais de 4 mil rostos das diversas representações das juventudes, no estádio de Maxaquene, Francisco nos lembrou da importância que os jovens moçambicanos tem para este País e reafirmou o seu louvor a Deus pelo vigor e ânimo da Juventude. Como ele mesmo nos disse em seu discurso:
Vós sois importantes! Precisais de o saber, precisais de acreditar nisto: vós sois importantes! Porque não sois apenas o futuro de Moçambique, ou da Igreja e da humanidade; vós sois o presente: com tudo o que sois e fazeis, já estais a contribuir para ele com o melhor que hoje podeis dar. Sem o vosso entusiasmo, os vossos cânticos, a vossa alegria de viver, que seria desta terra? Ver-vos cantar, sorrir, dançar, no meio de todas as dificuldades que viveis – como justamente nos contavas tu – é o melhor sinal de que vós, jovens, sois a alegria desta terra, a alegria de hoje. A alegria de viver é uma das vossas caraterísticas principais, como se pode sentir aqui! Alegria partilhada e celebrada que reconcilia e se torna no melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que querem dividir, fragmentar ou contrapor. Como faz falta, nalgumas regiões do mundo, a vossa alegria de viver!  (Papa Francisco no Encontro inter-religioso com os jovens, Maputo – Estádio de Maxaquene, 5 de setembro de 2019)

O Papa também nos desafiou a responder profeticamente quais atitudes de transformação podemos assumir para colaborar na construção de soluções conjuntas para Moçambique:

Como realizar os sonhos, como contribuir para a solução dos problemas do país?

Gostaria de vos dizer: não deixeis que vos roubem a alegria. Não deixeis de cantar e expressar-vos de acordo com todo o bem que aprendestes das vossas tradições. Que não vos roubem a alegria! Como vos disse, há muitas maneiras de olhar o horizonte, o mundo, o presente e o futuro. Mas é preciso acautelar-se de duas atitudes que matam os sonhos e a esperança: a resignação e a ansiedade. São grandes inimigas da vida, porque normalmente nos impelem por um caminho fácil, mas de derrota; e a portagem que pedem para passar é muito cara… Paga-se com a própria felicidade e até com a própria vida. Quantas promessas de felicidade vazias, que acabam por mutilar vidas! Certamente conheceis amigos, conhecidos – ou pode mesmo ter acontecido convosco – que, em momentos difíceis, dolorosos, quando parece que tudo lhes cai em cima, ficam prostrados na resignação. É preciso estar muito atento, porque esta atitude «faz com que te encaminhes pela estrada errada. Quando tudo parece estar parado e estagnante, quando os problemas pessoais nos preocupam, as dificuldades sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido” (Papa Francisco no Encontro inter-religioso com os jovens, Maputo – Estádio de Maxaquene, 5 de setembro de 2019)
Na missa de enceramento o Papa Francisco mais uma vez nos alertou dos perigos que enfrentamos em Moçambique, nos fez pensar sobre a corrupção e as explorações que existem por aqui:
“Moçambique possui um território cheio de riquezas naturais e culturais, mas paradoxalmente com uma quantidade enorme da sua população abaixo do nível de pobreza. E por vezes parece que aqueles que se aproximam com o suposto desejo de ajudar, têm outros interesses. E é triste quando isto se verifica entre irmãos da mesma terra, que se deixam corromper; é muito perigoso aceitar que a corrupção seja o preço que temos de pagar pela ajuda externa” (Papa Francisco na missa de encerramento em Maputo – Estádio de Zimpeto, 6 de setembro de 2019).

               
A presença do Papa Francisco ultrapassaram as palavras, Ele soube tocar as feridas do povo, soube acolher e dar luz apontando novos caminhos para a Paz, a Esperança e a Reconciliação, Francisco mostrou-se próximo e demonstrou compaixão para com aqueles que sofrem. Dirigiu-se com firmeza a toda a Igreja e ao Governo, foi claro e objetivo, mas acima de tudo, ele foi e é um enviado por Deus que humildemente, pouco a pouco, vai com gestos e atitudes vivendo o Evangelho e optando sempre pela vida digna de todos e todas.
                Para Moçambique, a visita do Papa Francisco foi sinal de que a nossa Igreja Católica continua viva e que se preocupa principalmente com os lugares onde a vida está ameaçada. No encontro com o Papa, percebemos que é preciso voltar ao evangelho e estar atento aos sinais dos tempos, deixando de preocupar-se com o EU e estendendo nossas mãos a toda pessoa e a nossa casa comum.

Escreva uma mensagem para a diocese de Bagé para este mês missionário.
                Viver a missão, é abrir-se a novas experiências com o outro, com Deus, com a criação e consigo mesmo, é estar disposto a proposta de vida de Deus para nós. É deixar-se amar. É entender que tudo o que somos e temos nos é ofertado por Deus para que possamos partilhar.  
                Neste mês de outubro, nossa Igreja nos convida a pensarmos a missionariedade mais intensamente, é preciso fazer isto com responsabilidade e compromisso. Nossa missão é em comunidade encontrarmos caminhos para concretizar o amor a Deus e ao próximo. Sejamos pontuais e coesos nos nossos planejamentos. A missão exige disciplina e organização, bem como a finalidade daquilo que realizamos, para que não caiamos num falatório desnecessário e pouco eficaz.

Que no mês missionário, nossa Diocese de Bagé, possa renovar sua missão, na busca da justiça e da dignidade de todas as pessoas, pois no tempo que vivemos nossa Igreja precisa agir com profetismo e audácia na sociedade, precisamos ser cristãos fora da Igreja. Que nos nossos encontros e atividades missionárias tenhamos presente a presença da Santíssima Trindade como sinal de comunhão. Que nunca andemos sós, o perigo de desanimar é grande. Vajamos juntos, coloquemo-nos diante de Deus como aqueles filhos e filhas dispostos a servir a Deus na vida do outro. Que Deus nos leve ao próximo mais necessitado e que sempre que possível nossa ação pastoral seja na comunidade mais pobre, pois é com eles que podemos entender o desejo de Deus.
Que neste mês possamos estender nossas mãos ao serviço da igualdade, que nossas paróquias sigam à luz da Palavra e que se mantenham firmes na fé. Assim, não nos esqueçamos de voltar a Nazaré, voltar as nossas raízes, disponhamo-nos a vencer a preguiça e desta forma, nos moveremos sempre rumo ao amor pleno que gera e cuida a vida. Desejo unidade na diversidade e votos de dias melhores ao nosso Brasil.
Com saudades e esperança, Rita de Cássia Patron Bandera.
Moma, 18 de setembro de 2019. 





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